1209. Eram esses números que reluziam na porta de madeira envernizada. Parada em frente a Porta com a chave na fechadura. Era estranho estar ali novamente - estranho e doloroso. Quanto tempo desde a ultima vez que estive ali ? Dois anos ? Três ?! ... Algo entre esses dois e três anos. Não Parecia tanto tempo assim, e ao mesmo tempo pareceu uma eternidade. Foi dilacerante ter que acostumar a uma nova vida. Fuso, temperatura, costumes... Na verdade, agora, analisando melhor, moleza tudo isso, difícil mesmo fora me acostumar com a dor.. Esse pensamento me fez paralisar e mergulhar em lembranças, uma pontada no peito – Ai - agonia, dor, desespero... EPA! Lembranças Proibidas. CÓDIGO VERMELHO. Balancei a cabeça tentando inutilmente diluir aquelas lembranças. Passei três anos da minha vida tentando ocupar ao máximo minha mente para que não houvesse oportunidade para pensar no assunto. Demorou até que eu pegasse os ´macetes´, mas peguei ia colocar tudo a perder só porque estava ali, e se estava ali era somente porque me julguei preparada para isso. – espero não estar enganada.
Girei a chave, em seguida girei a maçaneta ao mesmo tempo em que balançava de novo a cabeça – não quero pensar nela .. não posso!
Entrei na casa. Uma fisgada no peito... Faltava algo ali... Não queria lembrar o que ! Eu ainda não estava preparada.
O ambiente estranhamente familiar. Não muito diferente desde a última vez. Triste e solitário .. Um tanto aterrorizante. Tinha um ar de abandono – e de fato estava – e decididamente mais sujo.
Fechei a porta adentrando a casa, não era um lar, não me sentia bem ali, aquele lugar umedecia meus olhos, jamais votaria a chamar aquele apartamento de lar.
Entrei no quarto. A cama ainda estava do jeito que a deixara, o lençol um pouco fora do lugar. Caminhei ate a cama virei e deixei que meu corpo caísse na cama deitada de barriga pra cima, olhando o teto. As lembranças me invadindo novamente, fechei os olhos rápido tentando me desfazer dos pensamentos, um erro,não devia ter feito isso, as imagens do passado me invadiram.
Ali, naquela mesma cama, deitada exatamente no meio da cama de casal uma ruiva deitada, encolhida abraçando os próprios joelhos, quase sufocava tentando conter o choro, respirar doía tanto que ela tentava não precisar mais do ar. Ela ainda tinha um coração ? Um vazio sem fim se apossava do seu peito, se ainda houvesse coração ali, arranquem, por favor ! Coloquem uma pedra, um bloco de metal, um iceberg ou simplesmente não coloque nada. Que sentido tinha viver assim, sem nada ?! Queria não existir, queria não mais sentir essa dor, queria que as lagrimas cessassem. O ar que entrava pelas narinas, parecia queimar ao percorrer cada mínimo pedaço antes de chegar ao peito e contrair meu coração, como se estivessem apertando-o, espremendo, como um limão quando para a limonada, mas eu merecia cada lágrima, cada segundo de dor, cada ferida aberta ali. Ingênua, confiante, presunçosa, otimista, boba, BURRA, tola... Completamente, loucamente apaixonada, assim era eu ! - ou pelo menos ela me fez ser !
Abri os olhos levei as mãos ao rosto limpando as lagrimas que o banhavam. Ao que parece eu estava enganada, não estava preparada para isso, não podia confrontar o passado, essa lembranças vinham com prazer reabrir as feridas que jamais curariam, embora me obrigasse a pensar o contrario.
Estava claro que não me faria bem ficar ali, tinha que sair o quanto antes. Não sei até quando agüentaria segurar as lágrimas. Fui até a penteadeira e sentei na cadeira que costumava ficar ali. Tudo o que podia ver no espelho era a minha imagem turva por causa da poeira. Passei a mão no espelho limpando-o. Fitei minha imagem por alguns instantes. - Não suporto ficar aqui .. Não imaginei que machucaria assim. – Esperei alguns segundos até que meu reflexo respondesse. ( não sou maluca – eu acho – apenas converso com minha consciência. )
- Mas pra onde ? Pra casa do Guto ?
- Não, ainda não. Claro ele é meu melhor amigo .. sim eu sei que ele me ama e provavelmente está com saudade, mas não sei se estou reparada para as lembranças que isso trará. Sei que não posso fugir ou evitar pra sempre, é somente por agora. Pode me entender ? – Não sei por quantos segundos esperei uma resposta da menina ruiva refletida no espelho. – Bem, vou tomar banho antes que você realmente responda – disse levantando-me – Não quero ser obrigada a me internar.
Me sobressaltei com o telefone tocando, não queria falar com ninguém .. aliás, alguém sabia que eu estava ali ? Deixei que tocasse. Peguei a toalha e fui em direção ao banheiro, parei na porta ao ouvir a gravação da secretária eletrônica ..
- Oiii, sou a futura senhora Hailin – ouvi um estalo, nitidamente o som e um beijo, um selinho. Eu me lembrava bem do sabor adocicado dos seus lábios – Não estamos no momento, ou ocupadas demais para atender – então a ouvi rir, exatamente como me lembrava, sua risada rouca ainda me arrepiava. Ouvi também minha voz ao fundo “ safada “ ela riu novamente mais baixo e mais curto, e então disse quase num sussurro – ligue mais tarde. – e desligou.
Eu já não conseguia segurar as lágrimas.
- Victoria está aí ? – Era a voz do meu irmão, Juca – Bom, liguei pra mamãe e ela disse que você tinha voltado, porque não me avisou ? Entendo que esta de volta não deve ser fácil, mas também não precisa estar só, se quer manter em sigilo a sua volta, ok .. mas eu quero poder te ajudar. Eu te amo Maria Victoria. Me liga. – desligou.
- Te amo Juca.
Fechei os olhos e respirei fundo no intuito de fazer com que as lágrimas cessassem, tarde demais ...

Nenhum comentário:
Postar um comentário